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por Samir Thomaz
"Todos aqueles que a conhecem se impressionam por sua eloqüência, pelo calor com o qual exprime suas convicções, a rapidez de sua inteligência, o alcance de sua cultura filosófica e literária; entretanto, essas notáveis qualidades não devem fazer esquecer esse traço que a caracteriza: a paciência do pensamento."
Essas palavras, proferidas pelo pensador francês Claude Lefort em junho de 2003, por ocasião da outorga do título de doutora honoris causa pela Universidade de Paris 8 à filósofa Marilena Chaui, na capital francesa, traduzem com sobriedade a imagem que a comunidade acadêmica - incluindo-se aí mais de três gerações de estudantes e gente interessada na história do pensamento - tem de uma das mais combativas e vigorosas intelectuais do país. A filósofa foi a primeira intelectual brasileira a receber tal honraria.
Aos 61 anos, Marilena de Souza Chaui conta em seu currículo com realizações no campo da filosofia e da educação que, combinadas, denotam uma trajetória pontuada pela contundência das opiniões e por uma crítica implacável ao autoritarismo e à violência arraigados na realidade brasileira, postura que confere dignidade e sentido de ética a qualquer processo civilizatório.
Uma das fundadoras do PT, ex-secretária de Cultura na gestão Luiza Erundina, professora de História da Filosofia Moderna na USP e atualmente membro do grupo de intelectuais que está discutindo a reforma universitária, a professora paulista teve participação intensa na luta pela redemocratização do país, seja dando aulas, ministrando palestras, concedendo entrevistas, escrevendo artigos ou participando de debates. Além disso, traz no embornal uma enfiada de obras escritas ao longo de mais de 30 anos de atividade acadêmica e militância política. Entre essas obras constam Cultura e democracia, Brasil - Mito fundador e sociedade autoritária, Da realidade sem mistérios ao mistério do mundo e As nervuras do real, que trata do assunto que mais a tem inspirado no campo filosófico: o pensamento do filósofo holandês Baruch Espinosa.
Pela Ática, Marilena Chaui publicou Convite à Filosofia, que logo se tornou um de seus livros mais lidos e mais celebrados, principalmente entre estudantes de ensino médio e de graduação dos cursos de humanidade. Num país em que o ensino de filosofia e, num sentido mais amplo, o culto ao pensamento estão relegados a um plano secundário, o livro se tornou uma espécie de esteio do qual se valem os professores para suprir a precária formação filosófica que as universidades brasileiras oferecem.
Em 2003 o livro foi reformulado, num processo editorial que, em se tratando de Marilena Chaui, é sempre um arrebatado exercício de dialética da sua visão de mundo. Marilena está sempre se repensando e repensando o mundo. Para isso, afinal, foram feitos os filósofos.
A entrevista que se segue foi concedida em sua residência, uma discreta casa de classe média incrustada numa rua do bairro paulistano do Campo Belo, na sexta-feira que antecedeu o Carnaval, um dia agitado para o governo Lula, envolvido com o escândalo Waldomiro Diniz. Marilena Chaui, claro, não se furtou a falar do assunto.
Boletim Ática: Em que momento a filosofia pode fazer sentido na vida de uma pessoa? Boletim Ática: E em que momento você foi tocada pela filosofia? Boletim Ática: Que idade você tinha? Boletim Ática: O interesse por Espinosa vem dessa época? Boletim Ática: Hoje, como professora, você consegue visualizar no olhar dos alunos as mesmas inquietações que a perturbaram em sua época de estudante? Você não acha que a grande maioria vai se frustrar num país como o Brasil? Boletim Ática: Por que muitos jovens procuram a filosofia? Boletim Ática: Você já se manifestou contrária a perguntas e respostas em livros didáticos de filosofia. Por quê? Boletim Ática: O ministro Tarso Genro elegeu a reforma universitária como uma das prioridades do Ministério da Educação. Você tem feito parte do grupo que está discutindo o assunto e fazendo propostas ao governo. O que podemos esperar dessa reforma? Boletim Ática: O que aconteceu nos últimos 8 anos? Boletim Ática: O que fazer para mudar isso? Boletim Ática: O que você pensa sobre as cotas para minorias nas universidades? Boletim Ática: Você costuma afirmar que a sociedade brasileira é autoritária e hierarquizada. Gostaria que você fizesse um comentário a esse respeito. Boletim Ática: Como isso aparece na política? Boletim Ática: Você consegue identificá-la em relação ao governo Lula? Boletim Ática: A esse respeito, você afirmou certa vez que quem critica a linguagem do Lula é gente que lê Guimarães Rosa, mas não fala a língua do Riobaldo. Ainda assim, o simplismo de certas falas do presidente não estariam causando má impressão em quem já tem má vontade com ele? Boletim Ática: Como você está vendo o escândalo Waldomiro Diniz? Boletim Ática: Independentemente do sistema, a expectativa não era de que, com o PT, esse tipo de coisa não iria acontecer? Boletim Ática: O que representou para você o título de doutora honoris causa pela Universidade de Paris 8?
Marilena Chaui: Ela faz sentido num momento de crise. Pode ser uma crise existencial, diante dos valores da sociedade, das idéias da religião, da vida sexual. Uma crise que leva as pessoas a quererem saber se seria possível viver de outra maneira. E também uma crise de conhecimento, no instante em que ou certos conhecimentos novos aparecem e põem em causa os conhecimentos antigos, ou você vive certas situações que não consegue compreender.
Chaui: No meu caso, foi num momento de crise existencial muito forte com relação à religião. Foi um instante no qual a questão da onisciência e da onipotência de Deus tornaram para mim incompreensível aquilo que é o núcleo da cultura ocidental cristã, que é a culpa. Se Deus é onisciente e onipotente, ele sabe, no momento em que cria o homem, que o homem vai pecar. Então, por que ele criou o homem de maneira a permitir que o homem pecasse? Mas, sobretudo, por que ele pune o homem de uma coisa que ele já sabia de antemão que o homem iria fazer? Foi essa dúvida com relação ao núcleo da religião - porque se você não tiver a noção de pecado, você não precisa do Cristo, e se você não tiver o Cristo, você não tem o cristianismo - que me fez querer, primeiro, responder a essas perguntas.
Chaui: Eu tinha 15 anos. O professor nos deu um curso de introdução à lógica e apresentou o pensamento de Parmênides de Eléia e de Zenão de Eléia. Foi a primeira vez que eu descobri que o pensamento podia pensar por si próprio. E que, ao pensar por si próprio, a primeira coisa que o pensamento procura é a identidade e fugir da contradição. E eu me dei conta de que as questões que eu estava colocando eram a minha maneira de perceber que eu estava vivendo uma contradição. E que essa contradição era insuportável. Não que eu achasse que a filosofia ia responder à minha questão. Mas eu achava que a filosofia ia me ajudar a encontrar uma resposta para a minha questão.
Chaui: A Ética, de Espinosa, faz uma crítica radical da tradição teológica judaico-cristã - da idéia de um Deus transcendente, onipotente, onisciente, de um homem vicioso, decaído, pecador, que vai ser punido -, mostrando exatamente as contradições que existem nela. E propõe uma filosofia da imanência de Deus ao mundo e do homem a Deus, e abole a noção de culpa. Quando o curso terminou, eu disse: "professor, eu procurei isso a vida inteira. Finalmente encontrei". Eu diria que para essa questão a filosofia me deu uma resposta.
Chaui: Ah, mas nem tem dúvida. Pelas condições do Brasil, sem dúvida. Mas também pelas condições gerais da sociedade contemporânea. A sociedade contemporânea é uma sociedade aparentemente aberta, livre, desrepressiva, que parece valorizar a criança e o jovem. Mas na verdade é uma sociedade fechada. De um lado, ela não valoriza a criança e o jovem, ela usa a criança e o jovem para o mercado de consumo. De outro, não oferece ao jovem esperanças, sejam as esperanças no plano do trabalho, sejam as esperanças no plano político.
Chaui: Porque eles têm inquietações. O que os preocupa é essa aparência de que o mundo está dado, de que ele foi sempre assim e de que ele será sempre assim. Uma parte dos alunos, que queria respostas imediatas, se sente frustrada. Mas a outra parte se politiza demais. Porque eles vão compreendendo as causas e vão compreendendo a necessidade da ação. Eles vão à procura da filosofia justamente por causa das inquietações que têm diante de uma sociedade narcisista, consumista, fechada e que aparece desprovida de um tempo ligado à mudança e à esperança. Os estudantes acreditam que, se a filosofia não der resposta, pelo menos vai ajudar a fazer a pergunta direito.
Chaui: De modo geral, as graduações de filosofia no Brasil são muito precárias. Os professores não saem com uma boa formação. Mas, se eles foram fazer filosofia, se eles são professores de filosofia, se eles têm o livro na mão e se eles trabalharem o livro, lerem, se informarem, compreenderem o que está ali, automaticamente eles estarão capacitados a responder. Quando eu me posiciono contra as perguntas e respostas nos livros, é para dar a possibilidade aos próprios professores de trabalharem os textos e, eles mesmos, os que não têm uma boa formação, aproveitarem o texto como um complemento da graduação deficiente que tiveram.
Chaui: Eu estou muito esperançosa. Nós procuramos deixar claro para o Ministério por que as universidades públicas se encontram no estado em que se encontram, alertar os colegas de que a reivindicação por verbas é uma coisa que deve vir depois da discussão do diagnóstico sobre o que aconteceu com a universidade nos últimos 15 anos, particularmente nos últimos 8 anos.
Chaui: Nos últimos 8 anos houve uma política deliberada de desqualificação da universidade. A afirmação de que a universidade é burocrática, envelhecida, improdutiva, ineficiente, e a partir dessa imagem, já que ela é assim, de que ela não vai decidir sobre as pesquisas, sobre o ensino, sobre o acesso, de que ela não vai decidir sobre nada.
Chaui: Nós temos de retomar todas as virtudes, todas as potencialidades que a universidade tem, e revitalizá-la. A reforma não é para criar uma outra universidade, mas para resgatá-la. Eu estou muito esperançosa.
Chaui: Nós estamos fazendo uma proposta que possa evitar a idéia de cotas. A proposta é a de bolsas de estudo durante quatro anos para os estudantes das escolas públicas que, avaliados no decorrer do ensino médio, tenham assegurado no final o seu acesso à universidade. Porque as bolsas vão incidir diretamente sobre a questão da pobreza e vão valorizar o mérito. Eu concordo quando o Tarso diz que os negros e os índios não têm acesso à universidade não porque eles são negros ou índios, mas porque eles são pobres. Portanto, é uma questão econômica, social, e não uma questão racial. Agora, eu, pessoalmente, tenho uma dúvida enorme com relação às cotas. Por um lado, acho que elas vão acabar produzindo discriminação entre os estudantes. Por outro, é preciso começar com alguma coisa. A cota pode ser um meio inicial de conscientização da sociedade brasileira.
Chaui: É hierarquizada porque opera segundo o modelo senhorial, escravista, do período colonial. Ela opera segundo uma primeira distinção entre quem é gente e quem não é gente. Essa divisão é retrabalhada continuamente na sociedade brasileira, e permanece como o núcleo da forma da relação social. A relação social no Brasil é sempre uma relação entre alguém que se apresenta como superior perante um outro que é considerado inferior. O uso de "doutor" é típico disso. É para marcar a hierarquia social. Isso significa que você não consegue fazer operar no Brasil a idéia da igualdade do cidadão.
Chaui: Aparece com a idéia de que o político não é o seu representante, mas o seu protetor. De que você é cliente dele. Ele é aquele a quem você pede favores. Isso faz com que a nossa sociedade seja profundamente autoritária, porque ela não consegue nem operar com o princípio da igualdade, nem com o princípio da representação política, nem com a noção de direitos. A gente tende a achar que a violência é o bicheiro, o traficante, o pivete, e se esquece da violência que está instituída como forma da estrutura da sociedade brasileira. Essa violência aparece no machismo, no racismo, na discriminação sexual no trabalho, no preconceito de classe.
Chaui: Durante a campanha e agora, durante o governo, uma parte dos que fazem oposição tem como mote a afirmação de que o Lula, na medida em que ele não tem formação universitária, é um homem inculto, intelectualmente incapaz, que tem um discurso vazio ou populista e que não poderia ser presidente da República. A violência, o autoritarismo é a idéia de que o Lula, por ser um trabalhador, é um subalterno. E que, por ser um subalterno, deve ficar na posição de inferioridade.
Chaui: Eu acho que não. Eu vi o Lula falando em público em inúmeras situações. O que faz dele um político extraordinário é o fato de que ele entra em empatia quase imediata com o público que vai ouvi-lo. Ele sabe, pela expressão corporal dos que estão ali, qual é o discurso. Ele tem um discurso muito sofisticado, dependendo do público. E ele tem um discurso muito simplificado, dependendo do público. Agora, há imagens que ele usa em qualquer ocasião. Falando com líderes internacionais ou falando com donas-de-casa no Piauí, certas imagens ele usa porque são constitutivas da linguagem dele e da linguagem popular do Brasil.
Chaui: É preciso apurar tudo isso. Eu seria favorável a uma CPI. Mas uma CPI completa. Vamos investigar todas as campanhas. A legislação eleitoral no Brasil é um desastre. Ela é feita de maneira a produzir as formas corruptas de procedimento. E todo mundo sabe disso. Esse episódio é decisivo para que a reforma política que já foi proposta seja feita. Se você não fizer uma reforma política que comece pela reforma do sistema eleitoral, vai passar o tempo inteiro trabalhando com essas denúncias. O sistema está estruturado para que isso aconteça.
Chaui: Mas não tem jeito! Porque na hora que você faz a campanha, a campanha exige que você faça a televisão, o outdoor, o rádio, o comício, que você viaje, faça camiseta, faça o bottom... e tem de haver recursos para isso. Se os recursos são públicos, você não precisa de grandes recursos para a campanha, e você destrói a indústria política. Ocorre que não se pode, numa sociedade capitalista, imaginar que se vai destruir o marketing político. A nossa legislação faz com que você lide com o financiamento de campanha da maneira como no Brasil se lida com tudo: pela transgressão.
Chaui: Em termos da minha vida, nada mudou. Agora, eu fiquei muito comovida. Primeiro, porque o meu departamento de filosofia foi criado por uma missão francesa. Eu fui aluna de professores franceses e fiz a minha pós-graduação na França. Depois, pelo significado político que a Universidade de Paris 8 tem. Ela nasceu em meio aos conflitos de maio de 68. Foi criada para ser a grande experiência de esquerda. E eu estava lá no dia em que ela se abriu. Vincennes tem, na história da esquerda, um lugar muito importante. E fiquei emocionada também por ter sido a primeira mulher brasileira a ter recebido esse título, que é importante para as mulheres brasileiras.
Data:
18/03/2004