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São muitas as obras de Jorge Miguel Marinho, assim como é variado seu campo de atuação e interesses. Poesia, conto, teatro, histórias para jovens. Em todos esses gêneros, o carioca da Ilha do Governador já deixou registrada alguma contribuição.
Jorge Miguel acaba de lançar pela Ática Te dou a lua amanhã... - Fantasia biográfica sobre Mário de Andrade. Nesse título fascinante, ganhador dos prêmios Jabuti e Orígenes Lessa, Macunaíma e outros cinco personagens criados pelo próprio Mário saltam das páginas dos livros para ganhar corpo e partir em busca de seu criador, que, subitamente, desaparece de todas as fotos e imagens conhecidas.
Foi sobre esse criativo enredo, sobre Mário de Andrade e sobre a importância da leitura, entre outros assuntos, que Jorge Miguel Marinho concedeu a entrevista abaixo.
Boletim Ática: Qual é a história da sua relação com a vida e a obra de Mário de Andrade? Talvez essa ausência do Mário na minha história de leitor tenha sido uma distração imperdoável. Mas, levando-se em conta a relação sempre imprevisível entre leitor e autor, é possível que ele tenha chegado na minha vida no momento exato: quando eu estava fazendo doutoramento e escolhi a sua produção teatral, muito pouco conhecida, como tema da tese. Foi um encontro muito feliz. Descobri o sentido da "solidariedade", muito presente na sua obra e na sua vida, "sua melhor palavra", como diria Drummond. Boletim Ática: Como avalia a contribuição intelectual de Mário de Andrade no panorama cultural do país? Essa contribuição é particularmente brasileira ou tem um alcance mais amplo? Os especialistas podem falar melhor sobre esse traço tão peculiar de Mário de Andrade. De qualquer forma, apenas como ilustração, vale lembrar que, além de poeta e prosador dos mais expressivos da nossa literatura, ele também foi professor, etnólogo, jornalista, folclorista, musicólogo, fotógrafo de gente anônima, investigador das artes plásticas, cronista, colecionador de objetos de arte, pesquisador da influência da música na cura de doenças físicas e psicológicas e muito mais. Por essas múltiplas facetas, a repercussão de sua obra e seus estudos em outros países de fato existe, embora no Brasil poucos saibam. Não se trata de repercussão em termos de um público geral, mas de leitores iniciados e interessados pela literatura brasileira. Vale assinalar que Macunaíma já foi traduzido em diversos países, como França, Alemanha, México e mais recentemente Hungria. O mesmo interesse se dá com O turista aprendiz, alguns de seus ensaios e contos e também com Amar, verbo intransitivo, que já tem tradução até nos Estados Unidos. Boletim Ática: Fale um pouco do projeto que resultou em Te dou a lua amanhã... Li e reli toda a sua obra, mas, quando tive contato com suas cartas, fui fisgado pela ficção. O autor de Macunaíma adorava escrever cartas e, com toda a sua generosidade, não deixava ninguém sem resposta, fosse destinatário o Manuel Bandeira ou um poeta anônimo do Acre. Como ele mesmo dizia, "carta pra mim é uma coisa muito séria". Foi exatamente nesse momento, na leitura de suas correspondências, que o Te dou a lua amanhã... aconteceu. Enquanto fazia anotações para a tese, escrevia num outro caderno passagens comoventes para um possível conto num futuro remoto. Mas a criação não tem hora marcada. Quando comparei as anotações da tese com as do conto, percebi que o caderno para o conto tinha palavras e idéias demais. Foi então que desisti da tese e fiquei com a ficção. Os diversos livros de cartas, todas elas escritas com um lirismo sofrido e ao mesmo tempo feliz, tratavam de questões importantes da cultura brasileira. Pegando um desabafo ou uma confissão daqui e dali, as cartas contam a vida do Mário, do começo ao fim. Decidi então escrever uma "biofantasia" que me dava liberdade para falar da realidade com a caligrafia da criação. Boletim Ática: Como foi assumir, ao escrever Te dou a lua amanhã..., a dicção e a personalidade próprias do autor de Macunaíma? Quis escrever um livro que, ao menos timidamente, se aproximasse da linguagem do poeta. Por isso mesmo, na extensão da narrativa, tento fazer das palavras, do ritmo das frases, do estilo do Mário matéria para a minha recriação. Boletim Ática: Por que escrever literatura juvenil? É muito diferente escrever para crianças, jovens ou adultos? Escrever literatura infanto-juvenil tem para mim a mesma motivação que escrever qualquer outro tipo de literatura. Meu compromisso como escritor é socializar a minha modesta história individual, na tentativa de tornar matéria coletiva o pouco que posso perceber da experiência única de viver. Boletim Ática: Como se deu a sua história de leitura? Ninguém me contou histórias, não havia livros em casa, meus pais mal sabiam ler. Aquela biblioteca escolar nunca existiu. Não houve clássicos na minha infância. Quando penso como comecei a ler, lembro de um peixe alado sem saber muito bem a razão. Talvez porque essa imagem - do espinhaço às asas invariavelmente azuis - me revele a realidade e o sonho casados em partes iguais. Meu primeiro contato com os livros só aconteceu aos 15 anos, e a obra que me abriu as portas do maravilhoso mundo das narrativas foi Os padres também amam, de Adelaide Carraro, para muitos leitura apelativa, de "sacanagem" mesmo, principalmente esta que mistura sexo com religião. Foi isso: comecei com pornografia, no meu caso salutar e necessária para a satisfação de algumas curiosidades sexuais da adolescência. Bem depois, só com 18 anos, fui ler [Antoine] Saint-Exupéry, Machado de Assis e Clarice Lispector, que é minha companheira de leitura desde sempre e, falando subjetivamente, a escritora que pedi a um peixe alado, sem a menor noção de palavras ou anzóis. Vieram então Graciliano Ramos, [Julio] Cortázar, [Gabriel] García Márquez, Murilo Rubião e tantos outros. Hoje, acredito que essa ausência de leitura até a adolescência e, depois, um excesso de livros, personagens e pessoas fizeram de mim um escritor. Um toque inicial do acaso seguido de um caso definitivo de amor. Boletim Ática: É provável que essa entrevista venha a ser lida por especialistas em literatura infanto-juvenil, por professores dos ensinos fundamental, médio e superior e mesmo por estudantes de Letras e Educação. Há algo em especial que você gostaria de dizer a esses leitores? No mais, a literatura é registro humanizador e entusiasmado da vida, é a utopia da linguagem que aposta num mundo melhor e que vem a nós, portanto, como uma forma de felicidade. Exatamente no sentido que Mário de Andrade atribui a ela quando diz que "a arte, por mais pessimista que seja, é sempre uma proposição de felicidade, e a felicidade não pertence a ninguém, é de todos". Sendo experiência socializadora, o ato de ler e escrever se confunde com a própria vida, sem contar que aproxima lindamente conhecimento e prazer. Boletim Ática: Qual o papel da literatura hoje? Boletim Ática: Você está trabalhando em novos projetos? Tua melhor palavra Escrever não é fácil,
Jorge Miguel Marinho: Até eu terminar o curso de Letras, tive muito pouco contato com a obra de Mário de Andrade. Estava mais interessado em ler Clarice Lispector, poetas portugueses - como Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Florbela Espanca - e escritores latino-americanos representantes do realismo fantástico.
Marinho: A contribuição do Mário para a cultura brasileira é um caso raro em nosso país. Isso porque, sendo curioso por tudo o que identificasse a cara do Brasil, esse nosso poeta soube casar o ofício de estudioso com o trabalho de criador.
Marinho: Em 1993, ano em que se comemorava o centenário de nascimento do Mário de Andrade, eu estava reunindo materiais para defender minha tese de doutoramento. O assunto era "O teatro poético dos primeiros modernistas" e, é claro, o Mário fazia parte do rol de dramaturgos. Eu estava também bastante entusiasmado em poder revelar mais essa faceta meio desconhecida do nosso poeta: o forte interesse pelo teatro.
Marinho: Escolhi o Frederico Paciência, personagem de um conto homônimo, para ser meu porta-voz. Deixei propositadamente a linguagem singularíssima do Mário invadir a minha narração. Fiz apenas uma entrevista com o Zé Bento, que foi secretário do Mário durante 14 anos, e o restante foi recolhido das cartas que o biografado generosamente nos deixou.
Marinho: Alguém já disse que um bom texto juvenil é aquele que os jovens gostam de ler e, não por acaso, os menos jovens também. De qualquer forma, ao menos para mim, há um ganho inestimável nesse tipo de criação: escrever para jovens é realização um pouco mais condicionada pela presença de um leitor específico, há mais empenho do escritor em fazer da expressividade literária fato comum, comunicação.
Marinho: A minha história de leitura inicial é muito precária, retardatária e clandestina, diferente do mundo de livros, que fez parte da vida de outros escritores. Ela serve para questionar um certo senso comum: "para ser escritor, é preciso ter lido os clássicos, sem esquecer a filosofia, a história e os contos da carochinha".
Marinho: Gostaria de dizer que a leitura de textos literários é uma experiência privilegiada de conhecimento e de convivência com o outro. Não apenas pela singularidade da literatura, que se oferece como linguagem reveladora, mas também pelo seu caráter intersubjetivo, que garante uma relação mais aproximada, emotiva, lúdica e inventiva entre texto e leitor, motivando-o para a vivência de realidades conhecidas ou desconhecidas, como se entrasse em contato com o mundo pela primeira vez.
Marinho: Hoje e sempre, a função da literatura é inquietar os leitores, através de um modo específico de flagrar, captar e registrar a realidade que, de fato, resulta sempre em matéria de revelação. Revelação não propriamente no sentido religioso, mas como experiência de vida que, ainda que já tenha sido vivenciada por nós, se oferece como um mundo que se desvela e se descobre - volto a dizer - "com olhos de primeira vez...".
Marinho: Já há algum tempo venho dando oficinas de criação literária. É um grande prazer dialogar com outros possíveis escritores e perceber a singularidade do que possa ser literatura na própria matéria criativa. Estou também escrevendo poemas que tratam do ato de ler, escrever e criar. Segue por aqui um poema, porque a linguagem literária sempre diz mais e melhor o que se pretende dizer.
nem é simples.
É com a pena pontiaguda
entre o corte e o afago
que se busca escrever
a vida
sem rabiscá-la.
É obsessivo,
trabalhoso e extenuante
como limar a rocha
com algodão.
Mas às vezes acontece
e então cada palavra
é uma punção de maciez.
Data:
01/06/2005